É tanta coisa na cabeça que de vez em quando a gente se pergunta: é isso mesmo que quero? Afinal, quem sou eu? O que estou fazendo da minha vida? Estou dando atenção para as coisas certas? Estou gastando energia no que realmente importa? Estou dando a devida atenção para quem gosta de mim? A gente fica nesse mar de perguntas e nada até encontrar uma resposta.

12.4.14

Textos da Bruna Vieira

Olá Blogueiras... Há gente, não tem como não se apaixonar pelos textos da Bruna Vieira, blogueira e escritora. Não conhece? Então dá uma olhadinha lá no blog da Fofa Depois Dos Quinze. Separei dos 3 que mais gosto pra vocês....

Entre Aspas 
Sapato baixo, calça larga e cabelo preso. Esquentou e seus ombros tensos agradecem. Que cara bonita é essa? Já logo no elevador. Ah, devo ter dormido bem. Bom dia, bom dia. Olha, você está muito bonita hoje. Um fala, outro concorda. E pelos corredores, sorrisos dão continuidade aos elogios. O que é? Que segredo ela guarda? Que novidade é essa? Na cozinha perguntam: novo amor? No estacionamento perguntam: voltou com alguém?

No restaurante, na hora do almoço: é alguém novo? Cruza com um namorado antigo “nossa, você tá muito… é o quê? Sexo? A noite toda? Conta, vai, eu agüento ouvir”. Contar o quê? No espelho, enquanto escova os dentes, fecha os olhos e sabe pra si o segredo: ninguém. Não gostar de ninguém. Nada. Nem um restinho de nada. Nem de tudo que acabou e nem de nada que possa começar. Nada. Pouco importa qualquer outra vida do mundo. Não é nem pouco, é nada mesmo. Um dia inteiro para achar gostosas coisas bobas como um pacote de pipoca doce, um tênis pink ou a hora do banho quente com músicas recém baixadas e o tapetinho vermelho.

Um dia inteiro sem escravidão. O celular, o e-mail, o telefone de casa, o ar, o interfone, a rua. São o que são e não carrascos que nada dizem e nada trazem. Um coração calmo, se ocupando de mandar sangue para as horas felizes de trabalho, estudo, yoga, massagem, dormir, bobeiras, pilates, comer, rir, cabelo, filmes, comprar, trabalhar mais, ler, amigos . É isso. Uma agenda enorme que a ocupa de ser ela e não sobra uma linha de dia pra lamentar existências alheias. Linda, ela segue. Linda e feliz como nunca.

O segredo do espelho, escovando os dentes, sozinha, aperta os olhos, segura a alma um pouco sem respirar. Segura a pasta pensando que é um pouco de alma consistente na boca. Não cospe, suporte. Ela pode finalmente suportar seu peso e não dividir isso nem com o ventinho que entra pela janela. Nem com o ralo que a espera boquiaberto. A sensação é a da manhã seguinte que o papai Noel deixava os presentes: não é mentira, é só um jeito de contar a verdade com algum encantamento.

Estamos nos Adaptando
Tenho carregado um sentimento suspeito. Algo que de alguma forma sempre fez parte de mim, mas que de uns tempos pra cá, começou a transbordar aos pouquinhos. Posso ouvir a goteira no intervalo de uma música e outra. Não sei se deveria dizer agora, mas isso tem me consumido mais do que deixo parecer. Basta uma faísca de tristeza para que tudo ao meu redor se torne absolutamente questionável. Queria ter as certezas de antes. Era tão mais simples quando eu achava que sabia todas as respostas – o conforto da superficialidade. Hoje nem sei se estou pronta para ouvir as perguntas. Nem ligo se a razão está ou não aqui.

- Crescer é assim. Você aumenta de tamanho e ganha mais espaço aí dentro.
- Mas eu detesto esse vazio, meu senhor.
- E quem gosta, garota?

Nessa vida estamos todos nos adaptando a alguma coisa. Todos. Eu, você, as inimigas, o pobre coitado do entregador de pizza que detesta dias chuvosos como hoje e até a polêmica Miley Cyrus. No final das contas, em realidades um tanto quanto diferentes, óbvio, queremos basicamente a mesma coisa dos dias que vem e vão: paz.

Ô palavrinha de significado complexo, minha gente. Mas não foi sempre assim, lembra?

Até o fim do maternal era tão simples descrevê-la. Uma pombinha e pronto, todo mundo sabia exatamente o que eu queria dizer. E ela nem precisava de fato parecer um pássaro, viu? Era só rabiscar as curvas das asas e um triângulo pro bico – a folha do papel já era branca. Depois, nas aulas de história do ensino médio, paz virou o contrário de guerra. O intervalo do conflito entre dois países ou estados que disputam bens naturais e poder. Meu professor dizia com tanta convicção, que eu nem pensei em contestar. Então tá, paz é isso.

Passaram-se horários longos, dias demorados, semanas curtas, meses solitários, semestres complicados e anos intensos. Deixei de confiar em quem podia ler o meu diário, troquei de CEP três vezes, aprendi a gostar das bandas barulhentas do meu irmão, me apaixonei por uns carinhas aí – continuo tendo o mesmo dedo podre de antes – e escrevi um monte de textos como esse só pra tentar organizar meus sentimentos mais secretos.

- Onde você guardou o amor?
- Acho que eu deixei no caminho.
- Então volte.
- E se eu me perder?
- Você não iria muito longe sem ele.

Sou taurina, mineira e teimosa. Não acredito nessas convenções baratas, mas como minha mãe sempre disse antes de boa boa bronca, quando coloco algo na cabeça ninguém consegue tirar. Em todos sentidos. Não falo muito e escondo coisas até de mim mesma. É uma luta interna. Preciso sempre ir até o final, mesmo que esse seja um caminho solitário. Dito assim, parece besteira, mas ainda não sei lidar com os meus próprios demônios de outra forma. Tô tentando. Tô tentando. Tenho é medo de me corromper. Medo de me tornar vulnerável de novo. Medo de compartilhar a confiança que me resta. Quando ninguém está por perto, ela ainda me faz companhia.

- Por que é tão mais simples para as outras pessoas.
- É simples porque não é com você.

Parece mais fácil quando deixamos o mundo saber o quanto dói, mas fazê-los pensar que existe um culpado não nos torna inocente. Somos donos dos nossos próprios medos, de toda a insegurança acumulada, escolhas e também dos receios que a vida nos fez ter. Armadura nenhuma nos protege de nós mesmos. Ou seja, tudo isso infelizmente não significa que conseguiremos controlar essa bagunça em forma de insônia ou ansiedade, mas nos mostra que se trata de uma pendência interna que antecede qualquer promessa feita e desfeita.

Tempo. As memórias vão fazendo uma trança nos fios de cabelo da nossa história. Carregamos ali um pouco de tudo e todos que conhecemos – a parte madura e também a parte podre. Vamos transferindo manias, conhecimento e afeto por aí. Até que um dia as antigas músicas servem de trilha sonora para novos momentos, as palavras que um dia perfuraram nosso peito são usadas numa mesa de bar e o cheiro doce no travesseiro desaparece por completo. Nós continuamos os mesmos. Eles continuam os mesmos. Mas isso não quer dizer nada pois não se trata de um jogo de sete erros – são muito mais.

- O que isso tem a ver com a paz, garota?
- A última vez que eu a vi, estava escondida num olhar.

Se a vida fosse um ônibus, eu diria que somos todos passageiros. Alguns descem mais cedo. Outros nos fazem querer mudar de lugar. Hora estamos distraídos olhando através da janela, hora só queremos um pouco de conversa fiada pro trajeto parecer mais curto. Às vezes adormecemos sem querer no ombro de um desconhecido, às vezes fechamos os olhos por querer. O importante, eu diria, é continuar sentindo vontade de chegar em algum lugar.

São seis da tarde. Cidade grande. Ônibus lotado.

Sobre a palavra com três letras? Desenhei cinco pássaros no meu braço e tenho aguardado ansiosamente o fim do conflito entre minha cabeça e o meu coração. Pois é. Eles tinham toda razão.

 Caro Adolescente
Quando você tiver 22 anos, como eu, você vai se ver em um meio termo apavorante. Ainda vai ter medo de dizer que chegou de vez no mundo dos adultos, mas já não vai poder ter seus erros perdoados por ser “novo demais”. Nesta fase, em que você começa a pensar no que vai ser da sua vida daqui pra frente, você quase não vai ter tempo de olhar para trás e ver como ela era até ontem. Mas a verdade é que nós, pessoas de vinte e poucos, fomos você outro dia. E eu ainda me lembro das graças e desgraças. Das dores que você chora escondido. E das gargalhadas que solta sem medo.

Eu nunca achei que eu ia acabar olhando pra você e querendo dar conselhos. Até porque aos 22, diferente dos 16 anos, você não pensa mais que sabe tudo da vida. Aliás, quanto mais velho você fica, menos da vida você parece saber. As certezas acabam, se vale o aviso. E você começa a questionar mais coisas, mudar de opinião com mais frequência e se propor a ouvir os argumentos dos outros em discussões que antes batia o pé. Mas, como eu disse, eu olho para você e sinto vontade de avisar. Ainda que você não me escute.

Acho que o que eu mais quero dizer é pra você ter cuidado. Você já ouviu coisas do tipo “cuidado com quem você anda”. Mas nem é isso, não. Minha dica é: cuidado com quem você se transforma perto de outras pessoas. Você pode ser amigo de quem quiser e dá para ser amigo de pessoas totalmente diferentes de você. Apenas não se deixe mudar por causa do ambiente. Tenha personalidade de dizer não quando preciso. E não tenha medo de lutar pelo o que você acredita. Isto é bem melhor do que se deixar levar pela correnteza.

De qualquer forma, preserve seus amigos de escola. Você vai sentir falta deles um dia, porque de vez em quando você precisa de alguém que te conhecia quando você nem tinha, realmente, uma personalidade formada. Eles vão ter passado por fases tenebrosas ao seu lado, então talvez entendam melhor do que os que aparecerem depois. Mas preserve aqueles poucos e bons. Abandone este desejo imenso de ser popular. Acredite, não vale de nada.

Aceite: o mundo não te deve coisa alguma. O que quer dizer que seus sonhos não vão cair no seu colo de mão beijada, ainda que você possa ter crescido com a sensação de que merece um troféu. Uma hora você percebe que vai ter que lutar pelo o que quer. E isso inclui deixar certas diversões de lado e arregaçar as mangas para chegar lá. Não, nem sempre vai ser legal, divertido, com festas e bebidas como nos filmes. Às vezes vai ser apenas cansativo. Faz parte.

Não tenha tanto medo do futuro. No fim, ele acaba nem sendo tão assustador. Se escolher a faculdade errada, tudo bem. Você pode parar e começar de novo. Aliás, anote isto: a maior parte dos seus erros poderão ser consertados. Basta você se propor a fazer isso.

Esta é a melhor parte: as dores da adolescência não matam. O coração partido vai cicatrizar, as inseguranças vão diminuir e você vai seguir a vida. Eu sei, parece papo de quem já tá bem velho e não sabe mais de nada. Mas é como eu disse: eu fui você outro dia. Chorei o mesmo tanto. Tive os mesmos medos. E ó, tô aqui, vivinha. Acredita em mim? Espero que dê tudo certo por aí.

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